Na Vila dos Sargentos, o nosso vizinho do lado esquerdo era o Sargento Serra, com a especialidade de Infantaria de Guarda (IG), sua esposa, Dona Odila, pessoa muito alegre e amiga. Seus filhos, nossos amigos, eram a Virgilina, a mais velha e o Dídimo, mais novo.
O seu Serra gostava muito de contar histórias da caserna, de seu dia-a-dia de trabalho e um dia contou que recebera novos recrutas e após um dia cansativo de treinamento, todos em forma, ele perguntou bem alto:
""Quem é bom de caneta, forme uma fila à frente""
Pensando em diminuir a carga de treinamento muitos se apresentaram.
""Muito bem...então, durante esta semana, vocês peguem estas vassouras para a varreção das ruas da Base e não quero um palito de fósforo no chão"" ENTENDERAM???""
""SIM SENHOR"" foi a resposta de todos.
""Os que não se apresentaram, durante a semana vão lavar e limpar todos os banheiros, portanto se preparem com baldes e panos e "AI" de eu encontrar um vaso sanitário sujo...ENTENDERAM??""
""sim senhor"
""NÃO ESCUTEI"" (Sgto Serra)
'''SIM SENHOR"" (recrutas).
Minha mãe e Dona Odila falavam para o Seu Serra que tinham pena dos recrutas e ele e meu pai davam muitas risadas.
Um dia, eu e o Dídimo estávamos conversando na frente de casa e começamos a falar sobre disco voador, ele dizendo que não acreditava e eu dizendo que acreditava, inclusive poderíamos ver um naquele dia voando por Cumbica e a minha mãe só escutando nossas conversas na janela da frente de casa e ria.
O Dídimo duvidou do que eu disse de ver o disco voador e eu disse pra ele ficar olhando pro céu que já iria ver.
Entrei correndo dentro de casa e fui pegar na gaveta de nossa rádio vitrola um disco pesado de vinil, de 78 rotações, da cantora Carmem Miranda cantando "Tico Tico no Fubá" e nem deu tempo de minha mãe me segurar, corri para o lado do Dídimo e joguei com toda as minhas forças o disco para cima, em direção às casas da Av 3, girando como um "disco voador" e gritava: ""olha lá Dídimo o disco voador!!!""
Pra que!!!... o disco voando contra o vento começou a subir...subir...cada vez mais...e lá no alto, chegou a ficar parado, girando e de repente, começou a descer em nossa direção, aumentando a velocidade, cada vez mais e minha mãe gritou da janela: " saiam, corram... cuidado com o disco!!!...e fechou a janela pois parecia que o disco viria em direção dela.
O Dídimo correu pra casa dele e eu corri para a cabine de telefone que ficava ao lado e fiquei olhando...
O disco em grande velocidade, passou por cima da cabine e se espatifou em milhares de pedaços em cima do telhado de minha casa.
Minha mãe abriu a janela e gritou: ""Edson...entra já"".
Logo vi que eu estava encrencado, pois minha mãe quando não estava brava me chamava de ""Edinho".
Entrei e ela logo me perguntou: " E se o disco cai na cabeça de alguém? Como é que ia ficar??""
Eu respondi: " A pessoa ia cantar Tico tico no fubá pela vida inteira.""
Minha mãe segurando a risada disse: ""Você é quem vai ver quem vai cantar Tico Tico no Fubá quando teu pai chegar...vá já de castigo na sala de jantar até ele chegar.""
Foi dureza...ele ainda ia demorar mais de uma hora...
Peguei minha mala escolar e minha mãe mandou guardá-la pois estudo não era castigo e sim diversão.
Fiquei sentado e o Dique em baixo da mesa também no castigo.
O tempo demorava pra passar e eu imaginava a surra que ia levar de meu pai .
Vi uma mosca parar em cima da mesa e passar as patas dianteira na cabeça e nas asas e pensei: " puxa, mosca também toma banho!" e logo ela voou para fora da sala pela janela. Tentei usar o truque: "mãe...posso tomar banho?"... ela respodeu: "Só depois do Tico Tico no Fubá!"...pensei: "estou frito".
O Dique nem se mexia, devia saber que eu estava em apuros.
Coloquei as cadeiras da mesa uma atrás da outra e sentei na primeira imaginando que era motorista de ônibus. Minha mãe escutou o barulho e logo mandou colocar as cadeiras no lugar.
Percebi que minha situação era realmente difícil.
Mais algum tempo, escuto meu pai chegar com a DKW entrando na garagem e o Dique saiu em disparada todo alegre para recebê-lo e eu ali esperando minha sentença de morte.
Meu pai passou pela janela e me viu sentado e passou direto, pois sabia que sentado ali era castigo.
Escutei o falar dele com minha mãe, mas não entendia as palavras e de repente escutei eles gargalhando e em seguida...silêncio.
Levantei e fiquei em pé, quase chorando...nisso a porta abre e meu pai entra.
"Edson, viu o que você aprontou?" ... eu fiz sinal de sim com a cabeça.
"Você viu também a resposta que deu pra tua mãe?" (isto ele tentando segurar a risada)
Eu chorando, pedi desculpas e disse que nunca mais ia fazer isto.
Meu pai disse: " Vá pedir desculpas a tua mãe e pode sair do castigo "
Corri pra minha mãe, pedi desculpas e abracei-a e meu irmão e irmã olhando assustados.
Nisto, meu pai disse: " Edson, você me deu uma ideia. Vamos fazer uma pipa que eu fazia em Porto Alegre, aliás, uma SUPER PIPA,que se chama BARRACA. Aí sim vocês vão ver como ela voa alto"".
Numa gritaria de alegria, ficamos esperando o dia do meu pai fazer esta pipa!!!.
...entre nós... eu nunca acreditei em disco voador mesmo!
Bem acima de minha casa na Vila dos Sargentos, entre a Av 1 e Av 2, havia um gramado que transformamos em campinho de futebol. O problema do campinho é que ele era inclinado e jogando a bola no alto do campo, ela descia sozinha e tínhamos que correr atrás.
Vista do campinho inclinado (local real)
O gol de um lado era um poste de eletrecidade que era seguro por um cabo de aço e este espaço entre o poste e o cabo era a largura do gol. Do outro lado, era dois montinhos de camisas que tirávamos, com o mesmo espaço do gol do poste, portanto, time de camisa contra o time sem camisa que era escolhido num par-ou-ímpar.
Sempre à tarde, lá pelas 16 horas, depois da tarefa escolar, íamos de casa em casa chamar os amigos para o futebol e o Dique junto.
Depois dos times escolhidos, iniciávamos o jogo e o Dique ficava ao lado fuçando as moitas.
Num destes jogos o Dique resolveu participar e saiu correndo atrás da bola, pegando-a e sempre que tentávamos tirar a bola dele ele mordia nossos pés e nesta balbúrdia, o Dique atravessava o campo com a bola entre as patas quando de repente parou com a cabeça na altura do chão e a anca traseira alta abanando o rabo. Parou de se mexer, inclusive o rabo, e numa disparada maluca, latindo, num vai e vem frenético, atravessou o campo atrás de um preá.
Disparamos numa gritaria incrível todos atrás do Dique e do preá que foi em direção ao gol do poste e lá chegando, com Dique bem perto, num salto o preá pulou no poste e voltou por cima do Dique, num verdadeiro "looping" e o Dique também tentou a mesma tática mas caiu de costas e nós em cima dele num alvoroço total.
Foi o que bastou para o preá sumir de nossas vistas pelo mato.
Enquanto alguns procuravam o preá, vi meu pai chegando em casa com a DKW Vemaguet, entrando na garagem de casa.
Desci correndo pra casa e o Dique junto e logo começou a festejar a chegada do meu pai pulando e latindo.
Foto real de minha casa em Cumbica
Às vezes, de surpresa, meu pai pedia toda nossas malas escolar (naquela época era uma mala de couro) e conferia todo o material, os cadernos, as lições minhas e de meus irmãos e satisfeito elogiava nosso empenho ou, quando alguma coisa ia mal, ficava até tarde da noite explicando a matéria e o Dique ficava em silencio deitado em baixo da mesa até acabarmos.
Neste fim de tarde, o Milton pediu ajuda do meu pai nuns exercícios de Matemática e após a ajuda, meu irmão continuou fazendo mais alguns exercícios sozinho.
De repente, ouvimos um grito forte do Milton e saímos todos correndo até a sala de jantar onde ele estudava. O Milton chorando e gritando disse que um escorpião o havia picado. Depois de examinar as mãos de meu irmão, meu pai disse que não havia sido picado. Após muitas buscas, encontramos o escorpião, amarelo e preto e meu pai o pegou e o colocou dentro de um num vidrinho com álcool e fomos para o Hospital da Base.
No Hospital, falando para o médico de dia, o Milton disse que havia confundido o escorpião com uma borracha escolar e pegou-o na mão.
Após exames, o médico liberou-nos dizendo que nada havia ocorrido com o Milton.
Em casa, no dia seguinte, meu pai examinou tudo em redor da casa e descobriu que o escorpião havia saído de um buraco do barranco atrás de casa e subiu pela janela, justamente onde eu brincava com meus carrinhos, pois neste buraco saíram mais escorpiões, todos eliminados.
Todo orgulhoso de sua façanha de pegar o escorpião com a mão, o Milton levou o vidrinho com o escorpião para a escola e todos queriam ver e eu continuei a brincar na minha "Estrada de Santos", só que bem desconfiado dos buracos...
O que eu mais gostava aos Sábados era acordar bem cedo e junto com meu cachorro, o Dique, sair pelas ruas da Vila dos Sargentos, ainda com neblina, com alguns raios de sol aparecendo e ver nas matas as teias de aranhas carregadas de orvalho, com as gotículas refletindo o brilho do sol, ficando parecendo jóias com pedrinhas de brilhantes. Os formatos destas teias eram os mais variados e deslumbrantes.
O cheiro da manhã em Cumbica era todo especial, o forte perfume das Damas da Noite que de longe já se percebia, da terra úmida, das plantas, dos ciprestes.
O Dique fuçando todos os cantos dos matos, demarcando seu território urinando acabava ficando molhado pelo intenso orvalho da manhã e uma vez, latindo em direção a uma moita, deu um pulo forte para trás com os pelos arrepiados e estático viu pular à sua frente um enorme sapo-boi que também ficou estático.
Por mais que o Dique latisse, o sapo não se manifestava e isto acabou fazendo com que o Dique perdesse o interesse no sapo e saímos andando e alguns passos à frente, quando olhei para trás, o sapo já havia sumido no mato.
Sapo-boi
Na Vila, sempre às 6 horas da manhã, aparecia a van Chevrolet da Base que fazia a entrega dos pães e leites previamente encomendados.
Garrafa de Leite
Quem fazia a entrega era o Taifeiro José Maria, o mesmo que fazia a entrega da merenda escolar na escola dentro da Base. Eu sempre ganhava um pão doce quando a van passava por mim e ia comendo repartindo com o Dique.
O tempo ia passando, o sol subindo mais no horizonte e a neblina desaparecendo e o ar ia sendo preenchido com o aroma de café que estavam sendo preparados e logo minha mãe me chamava para o café.
Lógico que o Dique disparava na frente para sua refeição matinal e eu disparava atrás dele sem nunca alcançá-lo.
Após o café, ainda com um pedaço de pão com manteiga na mão, ia ao meu canto de brincadeiras atrás de minha casa, onde havia um barranco com cerca de dois metros de altura.
Minha casa com o barranco ao fundo
Neste barranco eu fazia a minha "Estrada de Santos" com pontes de madeira, áreas de descanso, ladeiras íngremes, curvas fechadas e ficava perfeita para meus carrinhos de plástico que vinham de brindes dentro do vidro de achocolatado Toddy : algumas Rural Willis e Kombi VW. A estrada era tão bem feita que meu pai muitas vezes vinha brincar comigo e dizia "Edson, você vai ser engenheiro".
Kombi de brinquedo
Chegando perto da hora do almoço, meu pai montava uma churrasqueira de tijolos no quintal, colocava carvão e uma grelha em cima e preparava um churrasco gaúcho "fogo de chão" com alcatra e linguiça toscana, sempre acompanhado de uma "caipirinha" bem gelada e o cheiro se espalhava por todo o lado atraindo alguns amigos e o Dique que não saia de perto.
À tarde, após o suculento churrasco e descanso, vinha a hora de lavar a DKW Vemaguet, que ficava brilhando.
Lá pelas 16 horas começava a revoada dos cupins e os pássaros ficavam alvoroçados fazendo manobras frenéticas atrás deles, principalmente as andorinhas.
Andorinhas em revoadas de cupins
Entre a Primavera e Verão, as andorinhas que chegavam de suas viagens continentais, montavam seus ninhos, procriavam e faziam suas manobras em busca de insetos voadores e era um espetáculo a parte.
Neste mesmo período, havia a revoada dos cupins para alegria das andorinhas, sabiás, pardais, tico-ticos, canários da terra, bem-te-vis, azulão, coleirinhas, curruíras, etc.
Revoada de cupins
O mais interessante era quando após muito sol o tempo começava a fechar para as famosas tempestades de Verão e as andorinhas, numa quantidade interminável, pousavam nos fios elétricos, deixando pouco espaço entre elas e ficavam aguardando a chuvarada.
Andorinhas esperando a tempestade
Observávamos as chuvas se formando na Serra da Mantiqueira e aquele imenso véu branco da chuva que vinha em nossa direção e os raios riscavam o céu com muita intensidade seguido de trovoadas muito forte. Neste momento as andorinhas, todas ao mesmo tempo, alçavam voo dos fios elétricos em direção à segurança de seus ninhos e uma forte rajada de vento levantava poeira, mato, papel, assolando todas casas e a tempestade desabava por toda a Vila.
Após a tempestade, que passava rapidamente, chegava o momento esperado de se atirar nas enxurradas fazendo todo tipo de tripolias e guerra de barro com os amigos.
O Sábado ia caminhando para a noite e quando a Lua cheia despontava no horizonte, nas noites quentes, centenas de vaga-lumes começavam sua revoada num festival de luz que se confundia com as estrelas e, não podia deixar de ser, pegar vaga-lumes era uma diversão imperdível.
Revoada de vaga-lumes
Chegava a hora do banho, lanchar e ir para o cinema da Base num encontro com todos os amigos e voltar a pé contando as peripécias do dia até altas horas e marcar para nos encontrarmos na Capelinha da Base para a Missa de Domingo.