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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O DISCO VOADOR

Na  Vila dos Sargentos, o nosso vizinho do lado esquerdo era o Sargento Serra, com a especialidade de Infantaria de Guarda (IG), sua esposa, Dona Odila, pessoa muito alegre e amiga. Seus filhos, nossos amigos, eram a Virgilina, a mais velha e o Dídimo, mais novo.

O seu Serra gostava muito de contar histórias da caserna, de seu dia-a-dia de trabalho e um dia contou que recebera novos recrutas e após um dia cansativo de treinamento, todos em forma, ele perguntou bem alto:
""Quem é bom de caneta, forme uma fila à frente""
Pensando em diminuir a carga de treinamento muitos se apresentaram.
""Muito bem...então, durante esta semana, vocês peguem estas vassouras para a varreção das ruas da Base e não quero um palito de fósforo no chão"" ENTENDERAM???""
""SIM SENHOR"" foi a resposta de todos.
""Os que não se apresentaram, durante a semana vão lavar e limpar todos os banheiros, portanto se preparem com baldes e panos e "AI" de eu encontrar um vaso sanitário sujo...ENTENDERAM??""
""sim senhor"
""NÃO ESCUTEI"" (Sgto Serra)
'''SIM SENHOR"" (recrutas).

Minha mãe e Dona Odila falavam para o Seu Serra que tinham pena dos recrutas e ele e meu pai davam muitas risadas.

Um dia, eu e o Dídimo estávamos conversando na frente de casa e começamos a falar sobre disco voador, ele dizendo que não acreditava e eu dizendo que acreditava, inclusive poderíamos ver um naquele dia voando por Cumbica e a minha mãe só escutando nossas conversas na janela da frente de casa e ria.


O Dídimo duvidou do que eu disse de ver o disco voador e eu disse pra ele ficar olhando pro céu que já iria ver.
Entrei correndo dentro de casa e fui pegar na gaveta de nossa rádio vitrola um disco pesado de vinil, de 78 rotações, da cantora Carmem Miranda cantando "Tico Tico no Fubá" e nem deu tempo de minha mãe me segurar, corri para o lado do Dídimo e joguei com toda as minhas forças o disco para cima, em direção às casas da Av 3, girando como um "disco voador" e gritava: ""olha lá Dídimo o disco voador!!!""

Pra que!!!... o disco voando contra o vento começou a subir...subir...cada vez mais...e lá no alto, chegou a ficar parado, girando e de repente, começou a descer em nossa direção, aumentando a velocidade, cada vez mais e minha mãe gritou da janela: " saiam, corram... cuidado com o disco!!!...e fechou a janela pois parecia que o disco viria em direção dela.

O Dídimo correu pra casa dele e eu corri para a cabine de telefone que ficava ao lado e fiquei olhando...

O disco em grande velocidade, passou por cima da cabine e se espatifou em milhares de pedaços em cima do telhado de minha casa.

Minha mãe abriu a janela e gritou:  ""Edson...entra já"".
Logo vi que eu estava encrencado, pois minha mãe quando não estava brava me chamava de ""Edinho".

Entrei e ela logo me perguntou: " E se o disco cai na cabeça de alguém? Como é que ia ficar??""
Eu respondi: " A pessoa ia cantar Tico tico no fubá pela vida inteira.""


Minha mãe segurando a risada disse: ""Você é quem vai ver quem vai cantar Tico Tico no Fubá quando teu pai chegar...vá já de castigo na sala de jantar até ele chegar.""

Foi dureza...ele ainda ia demorar mais de uma hora...
Peguei minha mala escolar e minha mãe mandou guardá-la pois estudo não era castigo e sim diversão.

Fiquei sentado e o Dique em baixo da mesa também no castigo.

O tempo demorava pra passar e eu imaginava a surra que ia levar de meu pai .
Vi uma mosca parar em cima da mesa e passar as patas dianteira na cabeça e nas asas e pensei: " puxa, mosca também toma banho!" e logo ela voou para fora da sala pela janela. Tentei usar o truque: "mãe...posso tomar banho?"... ela respodeu: "Só depois do Tico Tico no Fubá!"...pensei: "estou frito".

O Dique nem se mexia, devia saber que eu estava em apuros.


Coloquei as cadeiras da mesa uma atrás da outra e sentei na primeira imaginando que era motorista de ônibus. Minha mãe escutou o barulho e logo mandou colocar as cadeiras no lugar.

Percebi que minha situação era realmente difícil.

Mais algum tempo, escuto meu pai chegar com a DKW entrando na garagem e o Dique saiu em disparada todo alegre para recebê-lo e eu ali esperando minha sentença de morte.

Meu pai passou pela janela e me viu sentado e passou direto, pois sabia que sentado ali era castigo.

Escutei o falar dele com minha mãe, mas não entendia as palavras e de repente escutei eles gargalhando e em seguida...silêncio.

Levantei e fiquei em pé, quase chorando...nisso a porta abre e meu pai entra.
"Edson, viu o que você aprontou?" ... eu fiz sinal de sim com a cabeça.
"Você viu também a resposta que deu pra tua mãe?" (isto ele tentando segurar a risada)
Eu chorando, pedi desculpas e disse que nunca mais ia fazer isto.

Meu pai disse: " Vá pedir desculpas a tua mãe e pode sair do castigo "

Corri pra minha mãe, pedi desculpas e abracei-a e meu irmão e irmã olhando assustados.

Nisto, meu pai disse: " Edson, você me deu uma ideia. Vamos fazer uma pipa que eu fazia em Porto Alegre, aliás, uma SUPER PIPA,que se chama BARRACA. Aí sim vocês vão ver como ela voa alto"".

Numa gritaria de alegria, ficamos esperando o dia do meu pai fazer esta pipa!!!.

...entre nós... eu nunca acreditei em disco voador mesmo!


Clique pra ver o vídeo

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O PREÁ E O ESCORPIÃO

Bem acima de minha casa na Vila dos Sargentos, entre a Av 1 e Av 2, havia um gramado que transformamos em campinho de futebol. O problema do campinho é que ele era inclinado e jogando a bola no alto do campo, ela descia sozinha e tínhamos que correr atrás.

Vista do campinho inclinado (local real)

O gol de um lado era um poste de eletrecidade que era seguro por um cabo de aço e este espaço entre o poste e o cabo era a largura do gol. Do outro lado, era dois montinhos de camisas que tirávamos, com o mesmo espaço do gol do poste, portanto, time de camisa contra o time sem camisa que era escolhido num par-ou-ímpar.

Sempre à tarde, lá pelas 16 horas, depois da tarefa escolar, íamos de casa em casa chamar os amigos para o futebol e o Dique junto.

Depois dos times escolhidos, iniciávamos o jogo e o Dique ficava ao lado fuçando as moitas.

Num destes jogos o Dique resolveu participar e saiu correndo atrás da bola, pegando-a e sempre que tentávamos tirar a bola dele ele mordia nossos pés e nesta balbúrdia, o Dique atravessava o campo com a bola entre as patas quando de repente parou com a cabeça na altura do chão e a anca traseira alta abanando o rabo. Parou de se mexer, inclusive o rabo, e numa disparada maluca, latindo, num vai e vem frenético, atravessou o campo atrás de um preá.


Disparamos numa gritaria incrível todos atrás do Dique e do preá que foi em direção ao gol do poste e lá chegando, com Dique bem perto, num salto o preá pulou no poste e voltou por cima do Dique, num verdadeiro "looping" e o Dique também tentou a mesma tática mas caiu de costas e nós em cima dele num alvoroço total.
Foi o que bastou para o preá sumir de nossas vistas pelo mato.

Enquanto alguns procuravam o preá, vi meu pai chegando em casa com a DKW Vemaguet, entrando na garagem de casa.

Desci correndo pra casa e o Dique junto e logo começou a festejar a chegada do meu pai pulando e latindo.

Foto real de minha casa em Cumbica

Às vezes, de surpresa, meu pai pedia toda nossas malas escolar (naquela época era uma mala de couro) e conferia todo o material, os cadernos, as lições minhas e de meus irmãos e satisfeito elogiava nosso empenho ou, quando alguma coisa ia mal, ficava até tarde da noite explicando a matéria e o Dique ficava em silencio deitado em baixo da mesa até acabarmos.


Neste fim de tarde, o Milton pediu ajuda do meu pai nuns exercícios de Matemática e após a ajuda, meu irmão continuou fazendo mais alguns exercícios sozinho.

De repente, ouvimos um grito forte do Milton e saímos todos correndo até a sala de jantar onde ele estudava.  O Milton chorando e gritando disse que um escorpião o havia picado. Depois de examinar as mãos de meu irmão, meu pai disse que não havia sido picado. Após muitas buscas, encontramos o escorpião, amarelo e preto e meu pai o pegou e o colocou dentro de um num vidrinho com álcool e fomos para o Hospital da Base.

No Hospital, falando para o médico de dia, o Milton disse que havia confundido o escorpião com uma borracha escolar e pegou-o na mão.
Após exames, o médico liberou-nos dizendo que nada havia ocorrido com o Milton.

Em casa, no dia seguinte, meu pai examinou tudo em redor da casa e descobriu que o escorpião havia saído de um buraco do barranco atrás de casa e subiu pela janela, justamente onde eu brincava com meus carrinhos, pois neste buraco saíram mais escorpiões, todos eliminados.

Todo orgulhoso de sua façanha de pegar o escorpião com a mão, o Milton levou o vidrinho com o escorpião para a escola e todos queriam ver e eu continuei a brincar na minha "Estrada de Santos", só que bem desconfiado dos buracos...

Milton

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

UM SÁBADO EM CUMBICA

O que eu mais gostava aos Sábados era acordar bem cedo e junto com meu cachorro, o Dique, sair pelas ruas da Vila dos Sargentos, ainda com neblina, com alguns raios de sol aparecendo e ver nas matas as teias de aranhas carregadas de orvalho, com as gotículas refletindo o brilho do sol, ficando parecendo jóias com pedrinhas de brilhantes. Os formatos destas teias eram os mais variados e deslumbrantes.





O cheiro da manhã em Cumbica era todo especial, o forte perfume das Damas da Noite que de longe já se percebia, da terra úmida, das plantas, dos ciprestes.

O Dique fuçando todos os cantos dos matos, demarcando seu território urinando acabava ficando molhado pelo intenso orvalho da manhã e uma vez, latindo em direção a uma moita, deu um pulo forte para trás com os pelos arrepiados e estático viu pular à sua frente um enorme sapo-boi que também ficou estático.

Por mais que o Dique latisse, o sapo não se manifestava e isto acabou fazendo com que o Dique perdesse o interesse no sapo e saímos andando e alguns passos à frente, quando olhei para trás, o sapo já havia sumido no mato.

Sapo-boi

Na Vila, sempre às 6 horas da manhã, aparecia a van Chevrolet da Base que fazia a entrega dos pães e leites previamente encomendados.

Garrafa de Leite

Quem fazia a entrega era o Taifeiro José Maria, o mesmo que fazia a entrega da merenda escolar na escola dentro da Base. Eu sempre ganhava um pão doce quando a van passava por mim e ia comendo repartindo com o Dique.


O tempo ia passando, o sol subindo mais no horizonte e a neblina desaparecendo e o ar ia sendo preenchido com o aroma de café que estavam sendo preparados e logo minha mãe me chamava para o café.
Lógico que o Dique disparava na frente para sua refeição matinal e eu disparava atrás dele sem nunca alcançá-lo.

Após o café, ainda com um pedaço de pão com manteiga na mão, ia ao meu canto de brincadeiras atrás de minha casa, onde havia um barranco com cerca de dois metros de altura.

Minha casa com o barranco ao fundo

Neste barranco eu fazia a minha "Estrada de Santos" com pontes de madeira, áreas de descanso, ladeiras íngremes, curvas fechadas e ficava perfeita para meus carrinhos de plástico que vinham de brindes dentro do vidro de achocolatado Toddy : algumas Rural Willis e Kombi VW. A estrada era tão bem feita que meu pai muitas vezes vinha brincar comigo e dizia "Edson, você vai ser engenheiro".
Kombi de brinquedo

Chegando perto da hora do almoço, meu pai montava uma churrasqueira de tijolos no quintal, colocava carvão e uma grelha em cima e preparava um churrasco gaúcho "fogo de chão" com alcatra e linguiça toscana, sempre acompanhado de uma "caipirinha" bem gelada e o cheiro se espalhava por todo o lado atraindo alguns amigos e o Dique que não saia de perto.

À tarde, após o suculento churrasco e descanso, vinha a hora de lavar a DKW Vemaguet, que ficava brilhando.

Lá pelas 16 horas começava a revoada dos cupins e os pássaros ficavam alvoroçados fazendo manobras frenéticas atrás deles, principalmente as andorinhas.

Andorinhas em revoadas de cupins

Entre a Primavera e Verão, as andorinhas que chegavam de suas viagens continentais, montavam seus ninhos, procriavam e faziam suas manobras em busca de insetos voadores e era um espetáculo a parte.

Neste mesmo período, havia a revoada dos cupins para alegria das andorinhas, sabiás, pardais, tico-ticos, canários da terra, bem-te-vis, azulão, coleirinhas, curruíras, etc.

Revoada de cupins

O mais interessante era quando após muito sol o tempo começava a fechar para as famosas tempestades de Verão e as andorinhas, numa quantidade interminável, pousavam nos fios elétricos, deixando pouco espaço entre elas e ficavam aguardando a chuvarada.

Andorinhas esperando a tempestade
 
Observávamos as chuvas se formando na Serra da Mantiqueira e aquele imenso véu branco da chuva  que vinha em nossa direção e os raios riscavam o céu com muita intensidade seguido de trovoadas muito forte. Neste momento as andorinhas, todas ao mesmo tempo, alçavam voo dos fios elétricos em direção à segurança de seus ninhos e  uma forte rajada de vento levantava poeira, mato, papel, assolando todas casas e a tempestade desabava por toda a Vila.



Após a tempestade, que passava rapidamente, chegava o momento esperado de se atirar nas enxurradas fazendo todo tipo de tripolias e guerra de barro com os amigos.



O Sábado ia caminhando para a noite e quando a Lua cheia despontava no horizonte, nas noites quentes,  centenas de vaga-lumes começavam sua revoada num festival de luz que se confundia com as estrelas e, não podia deixar de ser, pegar vaga-lumes era uma diversão imperdível.

Revoada de vaga-lumes

Chegava a hora do banho, lanchar e ir para o cinema da Base num encontro com todos os amigos e voltar a pé contando as peripécias do dia até altas horas e marcar para nos encontrarmos na Capelinha da Base para a Missa de Domingo.

Antiga Capela da BASP

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DIQUE

A norma da BASP para os residentes nas Vilas militares era que deveriam entregar a casa após seis anos de moradia, podendo retornar residir na Vila após um ano. Portanto, em Janeiro de 1963 mudamos para o bairro da Penha, em São Paulo e eu estava com 10 anos de idade.

Vila dos Sargentos - BASP

Eu fui transferido para o Grupo Escolar Santos Dumont, no centro da Penha; o Milton e a Yára para o Estadual da Penha, também no centro da Penha.

Fomos morar num conjunto de edifícios na Rua Padre Benedito de Camargo, que por coincidência estes edifícios pertenciam ao Prefeito de Guarulhos, Fioravante Iervolino, onde era proibida a presença de animais nos prédios.

Devido a isto, tivemos que dar nosso cachorro, o Dique, um  Terrier branco, para um colega de meu pai que residia em Guarulhos e isto foi traumático tanto para nós como para o Dique.


Mudar da Base foi muito triste, deixar os amigos, o meu telhado da casa onde eu vivia passando meu tempo e sonhos, foi realmente difícil para todos nós.

Passados alguns dias da mudança para a Penha, fomos informados pelo Sargento Almada que o Dique apareceu na Vila e passou a noite inteira chorando em nossa antiga casa, raspando as unhas nas portas querendo entrar.

O Sargento Almada com pena do Dique o recolheu e  meu pai, no dia seguinte o levou de volta para o novo dono.

A explicação é que ele escapou da casa em Guarulhos e seguiu pela Av Monteiro Lobato por 14 km e conseguiu encontrar nossa casa de Cumbica.

Minha casa em Cumbica

Nós sentíamos muitas saudades de nosso companheiro de muitas brincadeiras e um dia, passando de carro por Guarulhos, vimos o Dique solto dentro de um bar no Centro de Guarulhos. Meu pai parou o carro, gritamos por ele e ele disparou para dentro do carro nos lambendo e chorando. Todos nós choramos, mas tivemos que o levar outra vez para o novo dono.

Aquele ano demorou muito para passar e quando retornamos para Cumbica em Janeiro de 1964. Fomos morar a duas casas depois da antiga na Av 2 e o novo dono não mais quis nos devolver o Dique, pois já havia afeto do cachorro com os filhos dele e nunca mais vimos o Dique.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

É CARNAVAL EM CUMBICA

                                                 
É Carnaval, tempo de alegrias, de fantasias, de marchinhas, de confete e serpentina e não poderia ser diferente em Cumbica.
O Cassino do Suboficiais e Sargentos todo enfeitado.

Cassino - parte de cima os salões de Carnaval

5 noites e uma matiné, de sexta à terça feira...ninguém poderia faltar e tudo estava preparado, as meninas de havaianas e os meninos de bermudas com camisas listradas vermelhas ou azuis.

A banda para os cinco dias de folia era sempre a banda da BASP que não deixava a alegria cair...

Quantos risos, quanta alegria...mais de mil palhaços no salão...

Pierrot está chorando pelo amor da colombina...no meio da multidão...
E assim se desenrolava todas as noites até as 4 horas da madrugada com o salão lotado.

Era tanta serpentina e confete no chão, que fazíamos montanhas deles e pulávamos em cima.


Quando de madrugada o sol começava a nascer, já estávamos totalmente molhados de suor e roucos de tanto cantar as músicas carnavalescas, mas já pensando no dia seguinte para outra noite de Carnaval.

                                       
                                                 clique para escutar as marchinhas de Carnaval

Até a Lua, já mandou nos avisar....
Que a noite é nossa..
Só até o Sol raiar...
Simbora nós dois...simbora nós dois...
O que se pode fazer agora não se deixa pra depois!

Era o sinal do fim daquela noite e o salão até tremia de tantos pulos e encerrava com um frevo.

Em 1969, o Clube dos Sargentos foi fundado na Vila e os carnavais passaram e ser realizados no Clube, porém a alegria continuou a mesma.










domingo, 25 de setembro de 2011

NÓS VENCEMOS

Todos os dias, de segunda a sexta, havia um ônibus escolar que levava todos os filhos de militares da Base, de manhã e à tarde, para as escolas de Guarulhos, pois em Cumbica não havia escola com o curso ginasial.
Nossa turma estava dividida entre vários colégios existentes em Guarulhos, o Colégio Claretiano (padres), Colégio Monteiro Lobato, Colégio Presidente Kennedy, Colégio 9 de Julho, Colégio Virgo Potens (freiras), todos particulares e a maioria na Escola Estadual Conselheiro Crispiniano.


Os motoristas do ônibus escolar da Base, alternadamente, eram  Wilson e  Miguel, sendo que o Wilson permitia conversas, risadas e o Miguel, jamais. Com o Miguel não podia nem conversar baixinho que ele olhava pelo retrovisor do ônibus e gritava, num berro histérico, sempre chamando-nos pelo nome de nossos pais: ""ÔOO  ADALBERTO! ESTOU TE VENDO DAQUI, NEM TENTE, CALE A BOCA SENÃO VAI DESCER"", ou então: "ÔOO SEU GARCIA, QUAL É A GRACINHA?? TÁ RINDO DE QUE?? É BOM PARAR"".

Um dia, combinamos fazer um ruído com a boca fechada que quase o Miguel se arrebentou de raiva!
""HHUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM" todos juntos, sem parar.
Por mais que o Miguel olhasse pelo retrovisor, não conseguia identificar que estava fazendo o ruído:
""HHUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM".

Ele brecou o ônibus violentamente, saiu de seu banco e começou a gritar: "QUEM É O ENGRAÇADINHO?? ENQUANTO NÃO FALAREM NÃO SAIO COM O ÔNIBUS"...mas todos em silêncio...ninguém falou nada.
O Miguel voltou ao seu banco, começou a dirigir o ônibus e...
"HHUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM"
Outra brecada e ele virou para nós e disse "VOU DAR PARTE DE VOCÊS, VOCÊS ME PAGAM".
Voltou a dirigir e nós:
HHUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM" e foi assim até chegar em Cumbica.

Durante algum tempo o Miguel não mais dirigiu o ônibus e quando retornou, começou a permitir conversas, mas só baixinho.

Nos desfiles de 7 de Setembro, dia da Independência do Brasil, era um maravilhoso colorido das cores das escolas, onde preparávamos os uniformes escolares sem qualquer mácula, perfeitamente passados.

Grito da Independência
O Claretiano, com seu uniforme verde e amarelo, o 9 de Julho branco com listas vermelhas e preto, o Monteiro Lobato, verde e branco, Virgo Potens, azul e branco, Kennedy vermelho e branco, Crispiniano em vermelho e azul.

Num destes desfiles, fomos com o ônibus da Base e como não haveria ônibus de retorno, combinamos todos nos encontrarmos após o desfile, no centro de Guarulhos, na Av D.Pedro II, em frente ao cinema.
O problema é que após o desfile bateu uma fome em todos e gastamos todo nosso dinheiro numa pastelaria e, portanto, sem como pagar o ônibus de volta.

A ideia foi pegar o ônibus de volta até o cobrador chegar para cobrar a passagem, já teríamos seguido um bom percurso de ônibus e desceríamos alegando ter perdido o dinheiro, porém demos azar, pois o cobrador veio logo no primeiro quarteirão. Descemos.

A solução foi seguirmos a pé, pela Av Monteiro Lobato, de Guarulhos até Cumbica, num percurso cerca de 14 Km e isto logo após um desfile foi uma verdadeira prova de resistência. Eu, Milton, Ricardo, Cláudio, Lucélio, João Alves, Flávio, Roberto e Raul, saímos de Guarulhos meio dia e chegamos a Cumbica 16 horas completamente esgotados, mudos e descalços.

Neste mesmo ano, 1969, o Milton, meu irmão e o Flávio Almada iriam prestar vestibular para Engenharia Mecânica e  não haviam muitas Faculdades disponíveis, sendo de muita dificuldade ser aprovado no vestibular.
Antes do fim do ano, vestibular feito e fomos saber o resultado que para nossa alegria, os dois foram aprovados e minha meta também já estava traçada em fazer o mesmo vestibular três anos após e com grande alegria também fui aprovado.
Engenharia
Milton Bartolo- Flávio Almada - Edson Bartolo

O Rubens Drumon, irmão do Roberto, em outro vestibular, entrou na Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica, em Barbacena-MG, o Celso Ávila entrou na Medicina de Santos, o Lucélio, Ricardo e Alexandre, Administração de Empresas.
Medicina
Celso Ávila

Lucélio Garcia - Ricardo e Alexandre Othechar

Matemática
Sílvio - Zeca

Escola Preparatória de Cadetes - FAB
Rubens Drumon


Escola de Especialista da Aeronáutica
Luis Washington
FAB

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O ÍCARO NA SEMANA DA ASA

E o nosso primeiro jogo de camisa de nosso time de futebol e futebol de salão, Ícaro começou a dar resultado com suas grandes vitórias.


Ícaro

A primeira vitória, contra um time de Guarulhos, conquistamos a taça da Semana da Asa de Cumbica.

Um dos time do Ícaro mesclado com Sargentos

Com este resultado, o Ten Gomes Neto passou a nos acompanhar em partidas oficiais, em disputas dentro da Base em Cumbica, no Parque da Aeronáutica em Santana e no CTA em São José dos Campos.

Como em jogos com o time do Parque da Aeronáutica quando usávamos jogos de camisa emprestadas da seção de educação física de Cumbica, éramos praticamente fregueses, com várias derrotas. Resolvemos desafiá-los com nosso próprio jogo de camisa, numa partida de futebol num gramado existente bem próximo da cabeceira da pista de aviões no Parque. O Ten Gomes Neto, nesta partida foi o Juiz.

Partida difícil, mas desta vez, bem equilibrado, num ataque nosso, logo o Cláudio fez o nosso primeiro gol.

Cláudio
No segundo tempo, um fato inusitado. Num ataque do time do Parque, bem nesta hora, um avião vem em direção a pista, descendo, cada vez mais e nós literalmente paramos meio assustados e o avião passou raspando em nossas cabeças e nos abaixamos.


O time do Parque nesta hora, acostumados, atacaram e fizeram o gol de empate, sem qualquer reação nossa.

Na foto, no alto à esquerda era o campo de futebol

Aquilo nos deixou enfezados e começamos a atacar repetidamente o adversário e num destes ataques, dentro da área, chutei a bola com violência para o gol, porém esta bateu no braço do jogador da defesa do Parque. O Ten Gomes Neto apitou e deu "dois toques"dentro da área. Numa confusão, perguntei ao Tenente Gomes Neto " a bola foi desviada pelo braço do jogador deles dentro da área?" e ele respondeu "foi". Eu peguei a bola e disse: "então é penalti". Todos ficaram calados, peguei a bola, coloquei na marca do penalti e esperei a autorização para bater.
O Juiz afastou todos da área, mandou o goleiro se posicionar e autorizou apitando.
Olhei pra bola, corri com raiva e preparei uma bomba!!!
Para minha surpresa e a do goleiro que saltou para um canto do gol, meu pé bateu no gramado e a bola foi indo bem devagar, de mansinho, pra dentro do gol. Que susto! Vencemos a partida por 2x1.

Na Semana da Asa de 1969, fomos convidados para a festa em São José dos Campos, no Centro Técnico da Aeronáutica (CTA) e Instituto Técnico da aeronáutica (ITA)e disputarmos a taça alusiva a esta festa.

Portão da Guarda do CTA - ITA
São José dos Campos - SP

Preparamo-nos, treinamos, lavamos e passamos nosso jogo de camisa com o belíssimo escudo do Ícaro                       
                                               Í C A R O
26 de Outubro de 1969, Domingo, encerramento das festividades da Semana da Asa, 09 horas, Ginásio de Esportes do CTA, São José dos Campos-SP, lotado, times perfilados Ícaro e CTA, taça na mesa dos árbitros, mesa composta com o Brigadeiro Comandante do CTA.

Time do Ícaro:  Lucélio Garcia - goleiro
                        Ricardo Othechar - defensor esquerdo
                        Edson Bartolo - defensor direito
                        Cláudio Garcia - atacante esquerdo
                        Milton Bartolo - atacante direito
Reservas Ícaro: Reinaldo (goleiro), Silvio, Gilberto (giba), Vanderley, Marcos e Alexandre Othechar.
Técnico: Tenente Gomes Neto
                        
Partida dificílima, pois todos estavam cobiçando o troféu da Semana da Asa.
Muitas faltas, e começamos a sentir uma certa preferência do árbitro pelo time da casa, ainda mais com um Brigadeiro na mesa de arbitragem.
O primeiro tempo acaba em zero a zero e nossa torcida começou a vaiar o árbitro que não freou as faltas do time do CTA.

Segundo tempo inicia e corre da mesma forma que o primeiro com muitas faltas e atritos.
O Lucélio, nosso goleiro, neste dia estava pegando até pensamento. Não passava nada.
O Jogo caminhava para seu final, que com este placar, deveria ir para uma prorrogação, mas de repente, a mesa apita o final do jogo e paramos, porém o time da casa continuou e fez o gol e o árbitro validou.

Corremos para a mesa dizendo que haviam apitado  final do jogo, mas o Brigadeiro desconversou e validou o gol.

O tempo fechou!!! Segura o Brigadeiro !!!

O céu de brigadeiro carregou de nuvens escuras e disparei pra cima do Brigadeiro, porém, no meio do caminho o Tenente Gomes Neto me segurou com receio de pancadaria. da mesma forma o resto do time partiu para cima do árbitro que sumiu no vestiário.

Reunidos no centro da quadra, despedimos da torcida e resolvemos ir para os vestiários sem participar da entrega de medalhas e troféu, que durante a entrega, houve uma vaia geral das torcidas.

Após o banho e todos arrumados, fomos comunicados para irmos ao rancho dos oficiais para um almoço de confraternização e nosso técnico disse que não poderíamos recusar.
O almoço foi muito bom e o técnico do CTA veio pedir desculpas e afirmou que também havia ouvido o apito final da mesa, mas era melhor esquecer este assunto.

O assunto realmente foi esquecido com todos mergulhando nas piscinas do CTA e, durante o caminho de volta, viemos cantando músicas de São José dos Campos até Cumbica, com muitas gargalhadas imaginando o Brigadeiro apanhando e nós na cadeia.